A HISTÓRIA DA EMPATIA

Escrito por: Paula Roosch

Sempre me pergunto qual é a matéria-prima da natureza humana. Quando penso nas guerras até as brigas mesquinhas de família, enxergo um egoísmo enraizado nas nossas atitudes…  já quando penso em atos heroicos de pessoas que sacrificam suas vidas por desconhecidos ou por mães que deixam de comer para alimentarem seus filhos, enxergo a empatia e o amor genuíno em nossa essência. E foi então que, aproveitando minha formação de Bióloga e minha curiosidade sobre as relações humanas, resolvi estudar e contar um pouco sobre a história da empatia. Essa é uma história sobre todos nós.


Breve introdução à fantástica máquina (onde tuudo pode acontecer…):

Para entender profundamente a empatia, precisamos conhecer o lugar onde ela se origina: tudo começa na nossa mente, ou seja, no sistema nervoso. E o que a mente humana tem em comum com a mente de outros animais? Bom…

Desenhos de cérebro para não assustar ninguém… (EADTEC)

Do homem à planária, o sistema nervoso é um processador que tem a função de interpretar as informações captadas pelos sentidos do animal para prever as suas próximas reações. Portanto, seja ele simples ou complexo, o seu principal objetivo é garantir a sobrevivência da espécie e fazer o possível para atender as necessidades fisiológicas, como comer, beber, descansar, proteger-se e se defender. Essas são as necessidades básicas dos animais, incluindo eu e você. Por serem básicas, elas estão na base da nossa pirâmide de todas as necessidades (a pirâmide abaixo foi grosseiramente desenhada por mim, baseada na pirâmide de Maslow).

O sistema nervoso nos faz ter um propósito egoísta?

Segundo a famosa teoria da Seleção Natural de Charles Darwin, apenas os organismos mais adaptados a atenderem suas necessidades conseguiriam sobreviver e passar essas características adiante para seus descendentes. Os mais fortes, velozes e mais férteis se destacariam, em um mundo onde os fracos não têm (nem tiveram) vez. Até aqui, toda essa mentalidade focada para o instinto de sobrevivência parece ser bastante egoísta, concorda? Nossos genes passariam as melhores características baseadas nos instintos de sobrevivência. Uma genética baseada no “que vença o melhor!”.

Bom, a lei do mais forte até faz sentido – mas não precisamos nem olhar para o lado para sabermos que temos muuuitas fraquezas e limitações. Há muitos reality shows que testam o nosso potencial de sobrevivência na selva e os resultados… ah, não são de se gabar. Então se nossos antepassados, embora mais acostumados, também tinham essas limitações físicas e mentais (afinal, herdamos as características deles!), como conseguiram sobreviver? Só com sua experiência? Isso é um bom diferencial, mas não o suficiente. Eles sobreviveram, exatamente como tantas outras espécies do reino animal: formando grupos que cooperavam entre si. Grupos fortes, compostos por indivíduos que se ajudavam e que conseguiam atender coletivamente suas  necessidades de alimentação e de segurança. As fraquezas de uns eram supridas pelas forças de outros.

Esses grupos poderiam até fazer parcerias com outras espécies – acredita-se que os lobos mais mansos foram os primeiros animais a serem domesticados pelo homem, trocando a proteção oferecida pela alcateia pelos alimentos caçados por humanos. A colaboração a serviço da sobrevivência!

Pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena apontam que os lobos trabalham bem em equipe e são capazes de aprender com os membros de seu próprio grupo.

Essa cooperação ainda parece ter um pano de fundo mais egoísta do que altruísta para você, baseada na garantia dos próprios interesses? Calma. Vamos continuar navegando mais profundamente na natureza da mente.

A gente não quer só comida…

Se eu te perguntar: o que você precisa para ser feliz? Refletindo sobre todos os aspectos da sua vida, sua resposta provavelmente não incluirá apenas necessidades fisiológicas. Os animais que possuem o sistema nervoso mais complexo, como os vertebrados e até alguns invertebrados, conseguem sentir e expressar emoções e, por isso, têm necessidade de cultivarem emoções agradáveis, como a felicidade, a paz e o amor. E como se atende essa necessidade? Através dos relacionamentos.

Isso não quer dizer que as emoções são sentidas da mesma forma por todos os animais: basta ver que a forma de se relacionar é completamente diferente. Consegue pensar em uma mamãe cobra cuidando de seus filhotes como uma mamãe ursa? A ursa tem uma ligação de cuidado com seu filhote que é exclusiva dos mamíferos, diferente de répteis e outras classes que deixam os ovos à própria sorte. Uma manada de zebras pode até se organizar para proteger um membro de sua espécie em perigo como uma colmeia de abelhas, mas uma zebra chega a tremer ao sentir medo – o que não acontece com a abelhinha. Um casal de papagaios pode ser monogâmico ao longo de sua vida adulta, diferente de um casal de aracnídeos, como as viúvas negras, em que a fêmea mata o macho após a copulação. 

Os animais com a capacidade de sentirem emoções socializam mais. Vou fazer uma pequena pausa para uma curiosidade sobre os insetos: não se sabe ainda o quanto eles têm a capacidade de sentir emoções primárias, já que o sistema nervoso é muito diferente e muito mais simples do que o nosso. Há estudos que mostram que abelhas sentem raiva e até otimismo, embora a percepção dessa emoção não seja como a nossa (eu que não quero perturbar uma colmeia que se sente ameaçada…). Mesmo assim, as formas de interação entre insetos são muito diferentes de como os mamíferos interagem. Existe cooperação e não socialização, no significado mais profundo desta palavra.

Abelhinhas – Getty Images.

Nesse ponto, começamos a ter mais esperança sobre a nossa própria natureza. Como algumas aves e demais mamíferos, amamos, cuidamos, socializamos e conseguimos nos colocar no lugar do outro. Muitos estudos mostram a natureza compassiva e amorosa de diversas espécies e encontrei algumas fotos para te inspirar. Se não fosse por essa capacidade de conexão, mães não amamentariam apesar de suas próprias necessidades fisiológicas. Indivíduos do grupo não se sacrificariam para salvar membros de sua espécie ou não se consolariam em momentos de dor. Casais não se fariam companhia, não demonstrariam cuidado e até amor. E o mais incrível é quando vemos essa capacidade de afeto se estendendo para além da própria espécie. 

Um esquilo da espécie Funambulus palmarum compartilha emoções com o filhote preso em uma gaiola. Foto de junho de 2011 em Batticaloa, Sri Lanka.
Interação entre elefantes. Foto extraída de Harvard Business Review, 2018.
Uma foto adorável entre um chipanzé com um filhote de tigre branco.
Mindrevolt, 2018

Chegamos a uma outra necessidade fundamental para nós, animais sociáveis: amor e pertencimento. Então a nossa natureza não é sobre fundamentalmente buscar comida e abrigo. Queremos a troca do amor, receber e dá-lo também. Queremos conexões!

Bichos sociais: o papel da empatia!

Você já percebeu como gostamos e queremos fazer parte de grupos? Somos bichos sociais. Mesmo que alguns de nós sejamos tímidos para certas (ou todas) interações, desde pequenos tentamos encontrar nossas “tribos” – as pessoas com quem nos identificamos e queremos compartilhar nossos pensamentos, gostos e até sentimentos. Constantemente buscamos a sensação de pertencer a algo maior. Quando sentimos uma grande dor e lembramos que isso não é algo exclusivo nosso, temos uma sensação de alívio. A conexão de um abraço ou de um beijo libera hormônios como a oxitocina e a endorfina, trazendo a sensação de bem estar e felicidade. Somos biologicamente programados para sentir prazer nas nossas conexões.

Para conseguirmos nos conectar, precisamos de um ingrediente especial. Algo que desperte o interesse pelo o que acontece com o outro, algo que gere preocupação pela dor alheia e que provoque o desejo de demonstrar amor ao próximo. Sim, a protagonista da nossa história enfim apareceu: senhoras e senhores, estou falando do combustível primordial das conexões: a empatia!

A empatia emocional é sentida em maior profundidade pelos mamíferos, já no cuidado parental. Os filhotes sorriem e choram, demonstrando aos papais empáticos se as suas necessidades fisiológicas estão ou não sendo atendidas. Também os filhotes começam a imitar as caretas e expressões de seus pais, sendo essa uma habilidade empática primária. As emoções são compartilhadas, o que faz com que os indivíduos desenvolvam sentimentos uns pelos outros. 

Além da empatia emocional, os primatas têm um mecanismo empático mais… sofisticado. Um especialista em primatas, Frans B. M. de Waal, já realizou muitos estudos com macacos, demonstrando a sua capacidade de serem empáticos. Um dos meus preferidos é de uma macaca bonobo chamada Kuni, que encontrou um pássaro ferido, escalou uma árvore alta, abriu cuidadosamente as asas do pássaro e atirou-o para que ele voasse. Quando o pássaro caiu rapidamente, Kuni desceu e o protegeu até o final do dia, até que ele pudesse voar normalmente. Parece que ela tinha noção do que era bom para um pássaro, simulando a troca de lugares. Estou falando sobre algo além da nossa capacidade de compartilhar emoções: primatas conseguem se colocar no lugar do outro, praticando empatia cognitiva!

Um exemplo de consolo entre chimpanzés: um jovem passa o braço
ao redor de um adulto macho que grita, depois de ter sido derrotado
em uma luta com seu rival. O consolo provavelmente reflete empatia, porque o objetivo de quem consola parece ser aliviar a aflição do outro. Por Frans de Waal.

Como seres humanos, somos os primatas com o mecanismo cerebral mais evoluído. Temos o neocórtex, uma estrutura complexa que ocupa cerca de 75% do volume do nosso cérebro. Entre outras funções, essa é a parte do cérebro que tem poderes incríveis, como os de racionalizar: a partir dele que imaginamos, temos autoconsciência e até tentamos ter consciência do que os outros estão vivendo. Portanto, nós temos um mecanismo da empatia ainda mais capacitado do que todos os outros animais, porque nossa capacidade cognitiva é muito mais desenvolvida. Isso significa que, biologicamente, somos mais preparados para sentirmos empatia e amor ao próximo. E da mesma forma, somos mais capazes de demonstrarmos egoísmo também… vou explicar melhor!

O médico e o monstro habitam em nós…

O fato de termos a razão para imaginar pode nos fazer acreditar que temos que ter razão em nossos argumentos. A competitividade é amplamente estimulada em nossa cultura e a “lei do mais forte” está muito presente na nossa formação. “Seja o melhor da sala”. “Faça cursos extras porque você tem que se destacar”. “Quem é mais bonito, chama mais atenção”. “Para ser promovido, você tem que se destacar em relação aos outros”. “Vença, ganhe, seja melhor!” – alguma dessas frases te parece comum? Talvez seus pais tenham te falado coisas semelhantes… ou talvez seus professores, seus colegas, as propagandas que você ouviu. Talvez todos eles. Você nem sabe de onde vêm todas as crenças que te fazem acreditar que você não é bom o suficiente e que você precisa ser melhor do que os outros, mas tem uma coisa que elas despertam em você: a sua capacidade de ser egoísta, colocando seus interesses pessoais acima de todos.

Algumas consequências da competitividade nada saudável: burn out, síndrome do pânico, transtorno de ansiedade e algumas outras doenças físicas e mentais da era moderna…

A competição pelo destaque e pela atenção dos outros não estimula o amor próprio e muito menos ao próximo. Mendigamos a aprovação dos outros sem percebermos, adotando estratégias erradas: com comunicações defensivas e agressivas. Ora somos não-fui-eu-foi-ele, ora somos você-fez-isso-comigo! E vamos combinar: já carregamos taaanta culpa interna (mesmo que de forma não consciente), que não queremos aumentar nosso fardo. Responsabilizar o outro parece a alternativa mais lógica para o nosso ego ficar mais… à vontade com ele mesmo.

É pelo próprio ego que seres humanos provocam guerras, brigas entre torcidas organizadas, conflitos familiares… e onde será que a empatia fica nessa história? Esquecida? Não exatamente. Ela ainda está lá, só que com o foco distorcido. Existe uma espécie de “empatia seletiva” na guerra entre os grupos que se apoiam, em prol de interesses egoístas. Essa empatia seletiva também está presente em cada indivíduo que compõe uma torcida organizada, no sentimento coletivo de pertencimento a um grupo. Só que essa empatia não se estende a quem pensa diferente. A pessoa consegue se colocar somente no lugar de quem pensa parecido – e se uma pessoa do grupo dela sofreu uma ofensa, ela leva inclusive para o campo pessoal (do próprio ego). 

No exemplo ainda do futebol: qual o momento em que as torcidas de times estaduais adversários se unem? Em campeonatos mundiais! Na copa do mundo, os rivais mudam de figura e o mesmo país torce junto. A união e a rivalidade apenas mudam de foco. Temos a sensação de estarmos mais unidos do que nunca, porque o adversário ficou mais distante, em outro país. Fico pensando que, para o planeta se unir em prol de uma mesma causa, seria necessária uma invasão alienígena de ETs artilheiros ou algo assim…

Meus devaneios… ainda bem que o Google me mostrou que muitas pessoas já pensaram nessa cena antes (desenho de Drawception).

Então nossa natureza empática tem um fundo egoísta? Essa é a moral da história? Como vocês podem perceber, ainda tem mais texto pela frente. E essa moral não seria motivadora para eu manter o Mídiamor. Então não, não acredito nisso.

Temos urgência em uma mudança de mentalidade!

A capacidade de imaginação do ser humano, que tem dentro de si a máquina mais incrível do planeta, permitiu a criação de coisas incríveis. Quem diria que uma espécie seria capaz de viajar à lua, de construir edifícios modernos e gigantescos, de desenvolver tecnologias que dão acesso a qualquer informação e que ainda cabem na palma da mão?

O grande problema é que esse poder de criação até então está sendo predominantemente controlado pelo ego. Percebemos os efeitos disso no desequilíbrio dos ecossistemas, nos conflitos socioeconômicos de todos os tipos, e na própria saúde mental e física das pessoas que se tornam vítimas de seu poder de raciocínio equivocado – a curva da população que sofre de ansiedade e depressão no mundo todo só sobe…

Está claro que uma nova mentalidade é fundamental para alcançarmos o equilíbrio em todos os aspectos – começando pelo nosso querido Planeta até à nossa própria mente. E por onde começar?

Você se lembra da pirâmide das necessidades fundamentais desenhada acima? Ainda não terminamos de completá-la. Quais serão as outras necessidades que justificam a busca do ser humano? Conseguimos completar a lacuna do amor e pertencimento desenvolvendo relacionamentos que tenham conexões verdadeiras e profundas. Isso tem um efeito direto nas lacunas mais acima da pirâmide, elevando a nossa autoestima e nosso senso de autorrealização: é nas conexões que encontramos inclusive respostas sobre quem somos nós e o que viemos fazer aqui (o famoso propósito). Afinal, apesar do autoconhecimento ser importante, conseguimos perceber que ele não é o suficiente para evitar a ansiedade e a depressão das pessoas, certo? A era da autoajuda não foi eficaz para o ser humano encontrar as respostas dentro de si e adquirir consciência total de seu papel individual em relação ao todo.

Nas nossas relações encontramos a chave para acionarmos o poder da autoconsciência no mecanismo maravilhoso da nossa mente: quando o nosso ser percebe que faz parte de algo muito maior do que os rótulos impostos, do que a voz do ego e do que as crenças limitantes, ele entende que é uma pecinha que faz parte de tudo que existe. Ele é o tudo e o nada. E ao nos empoderarmos dessa autoconsciência, a mágica começa a acontecer a partir de nós. Conseguimos, inclusive, preencher as necessidades da nossa pirâmide.

Quem poderá nos socorrer?

Acredito no nosso poder de escolha a partir da autorresponsabilidade. Então essa é a primeira escolha que podemos fazer: assumir a responsabilidade pelo mundo à nossa volta, naquilo que está sob nosso controle, desde o momento que acordamos até a hora de dormir. Acredito na rotina que a gente decide construir, mantendo o foco na mentalidade que queremos ter. Essa mentalidade determina as nossas práticas empáticas e compassivas. Ela determina o tipo de mundo que criamos para nós e para os outros.

Pensa comigo:

  • O que faz alguém entrar em um prédio em chamas ou se atirar em um mar turbulento para salvar alguém, arriscando sua própria vida por um conhecido ou desconhecido?
  • O que faz alguém escolher a vocação de professor do ensino público do Brasil, aceitando ganhar salários baixos para atuar diretamente na educação infantil de populações com menor poder aquisitivo?
  • O que faz alguém desistir de uma carreira de sucesso para se dedicar a uma causa defendida por uma ONG?
  • O que faz alguém dividir o pouco de comida que tem com seus vizinhos?
  • O que faz alguém ouvir e consolar outra pessoa por horas?
  • O que faz alguém contar uma história para seus filhos dormirem, mesmo depois de um dia exaustivo e estressante de trabalho?

O amor genuíno existe. O fio condutor é a empatia. Contamos muitas e muitas histórias no Mídiamor diariamente, para relembrar desse nosso potencial amoroso. Tudo começa nas nossas escolhas. Temos o mecanismo, temos o potencial. Com olhar atento às oportunidades e vontade de mudar a realidade, podemos colocar a empatia em prática e realizar atos de bondade (a rima não foi proposital, mas deu certo 😊).

Foto por: Chris Smith.

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