VOCÊ TEM A SÍNDROME DO IMPOSTOR?

Escrito por: Paula Roosch

Quando alguém te elogia, você reconhece suas qualidades ou acha que a outra pessoa está exagerando e não te conhece muito bem? Às vezes você se sente uma fraude, como se as pessoas fossem descobrir que você não é aquilo que elas pensam? Você acha que tudo aquilo que você conquistou é fruto do seu esforço ou fruto da sorte, acaso, somente de Deus ou de algum outro fator? Você sofre da síndrome do impostor?


Se você se identificou com essa sensação de fraude, não merecimento e de nunca ser bom/boa o suficiente, quero começar esse texto te falando: felizmente e infelizmente você não está sozinh@. Felizmente porque isso não significa que há algo de errado propriamente contigo, mas com os estímulos e crenças da sociedade atual. Infelizmente porque um número enooorme de pessoas sofre da chamada síndrome do impostor: um estudo realizado pela psicóloga Gail Matthews da Universidade Dominicana da Califórnia – EUA, mostrou que a síndrome atinge cerca de 70% dos profissionais bem-sucedidos. Se-ten-ta-por-cen-to das pessoas que conquistaram cargos de sucesso, ou seja, que ocupam posições admiradas e talvez invejadas por muitas pessoas, acham que não merecem estar ali e que podem perder essa posição a qualquer momento. E adivinha quem sofre mais disso? As mulheres.

Para contextualizar melhor as características e os efeitos colaterais dessa síndrome, apresento a personagem do dia: a Impostora.

Pareço plena e até uma super heroína para os outros, mas por dentro me sinto uma vilã e não paro de me criticar….

A Impostora poderia ser interpretada por muitas pessoas que sofrem da síndrome na vida real: a atriz Natalie Portman, por exemplo, que cursou nada mais, nada menos que a Universidade de Harvard, disse em um discurso no próprio local: “achava que cada vez que abrisse minha boca teria de provar que não era apenas uma atriz estúpida“.

Outra possível candidata para a Impostora seria a atriz Emma Watson, que já contou em uma entrevista como se sentia ao ser elogiada por papéis famosos, como a Hermione de Harry Potter: “Parece que quanto melhor eu me saio, maior é o meu sentimento de inadequação. Porque penso que, em algum momento, vão descobrir que sou uma fraude e que não mereço nada do que conquistei”.

E por que será que pessoas tão incríveis e talentosas não conseguem enxergar e reconhecer a capacidade extraordinária que possuem? Para explicar melhor isso, vamos entender como a Impostora pensa.


A suposta Impostora é… uma pilha de nervos!

Será que vou dar conta? Será que eles vão perceber que não sou tão boa assim?

A ansiedade é bem conhecida da Impostora. Ela constantemente se sente inferior ao que as outras pensam sobre ela. Pensamentos como “será que ele percebeu que eu não sei tanto assim?” ou “o que será que ele está pensando agora? qual crítica mental sobre mim ele está criando na cabeça?” ou “se ele descobrir que não sou competente, sua opinião sobre mim vai mudar” fazem parte do repertório do seu diálogo interno.

Além de toooda a ansiedade por manter uma suposta falsa aparência que pode ser desmascarada a qualquer momento, normalmente a Impostora tem ainda mais dificuldade de falar NÃO e de impor limites. Imagina só se os outros descobrirem que a Impostora não dá conta do recado… essa super heroína abraça o mundo com um sorriso no rosto, mesmo que castelos internos estejam desmoronando…


A Impostora se sente incapaz em praticamente tudo o que ela faz

A Impostora se sente uma fraude em tudo o que faz.

Ela pode até não expressar sua angústia ou disfarçar com um sorriso no rosto, mas a verdade é que o peso da culpa e de sua suposta incapacidade massacram a consciência da Impostora, todo santo dia.

Apesar desse peso ser mais evidente no trabalho, não é só na vida profissional que a Impostora sente que não é boa o suficiente… até na vida pessoal, em seu papel como filha, mãe, namorada, esposa ou amiga a Impostora sente que não é competente o bastante para desempenhar suas funções do dia-a-dia e que, por isso, pode perder o respeito, admiração e até mesmo o amor das suas pessoas queridas. Mesmo que, objetivamente, a Impostora perceba que se esforçou para chegar onde está, a falta de confiança nas suas qualidades não a permite aceitar isso do fundo do coração mesmo, sabe? É como se ela sentisse que não é realmente digna de ser amada.

Com esse sentimento, a Impostora sente o constante medo de ser substituída. Talvez ela deixe de ser a filha querida. Talvez seus filhos não a considerem boa mãe e deixem de contar as coisas para ela. Talvez seu namorado ou marido a troque por alguém mais interessante. Talvez suas amigas muito mais interessantes e poderosas que ela (porque é assim que a Impostora as enxerga) cortem o contato próximo. Talvez ela não deva tirar férias, porque o chefe pode substituí-la (e coitada da Impostora se for trabalhar para um chefe oportunista, que perceba essa fraqueza e lhe faça constantes ameaças de perder o emprego!!). A Impostora carrega um peso gigantesco formado por seus medos.


A Impostora constantemente se autossabota

Melhor eu não comprovar para os outros o que já sei: que sou um fracasso mesmo.

A autossabotagem foi tema da nossa live semanal lá no Mídiamor (clique no link para assistir essa Live com dicas para driblar a autossabotagem!). E a Impostora tem muitas cartas na manga para se autossabotar com as melhores desculpas, tanto para ela quanto para os outros.

Por exemplo: talvez esse não seja o momento ideal da Impostora tentar colocar seu sonho em prática (momento esse que nunca chega). Talvez ela esteja muito ocupada para se dedicar a outra coisa. Talvez ela mude de assunto. Talvez ela só procrastine. Dentro de si, ela tem medo de que um possível fracasso apenas ateste o que ela já pensa que sabe: que ela não é boa o suficiente. E aí, isso ficará escancarado para toooodo mundo, atestando a fraude que ela tenta esconder (e que só existe no imaginário dela).


A Impostora pensa que pode ler a mente das pessoas

Aparentemente ela lê os pensamentos… e pensa que os outros exageram nos elogios.

Elogios não são o forte da Impostora. Ela reconhece qualidades e competências das pessoas ao seu redor e pode até ser a pessoa que motiva seus amigos, mas quando o assunto é ela mesma… fica muito mais difícil reconhecer suas próprias qualidades. E por isso, quando alguém faz isso por ela através de elogios, no fundo (não só no fundo) ela não acha que os merece.

A Impostora chega até a pensar que as pessoas são gentis demais ou não a conhecem tanto assim e, por isso, não sabem o que pensam. Receber um elogio causa uma dupla e estranha sensação: a de alívio, de que as aparências estão supostamente sendo mantidas; e a de angústia, porque ela sente que precisa continuar se esforçando mais e mais para mantê-las – especialmente depois que as expectativas se elevaram. O malabarismo mental fica exaustivo.


Como a Impostora pode se curar?

Como toda mudança de mindset, a Impostora precisa -> 1) ficar consciente do problema; 2) usar as emoções como termômetro para sinalizar quando ela está se autossabotando; 3) entender as crenças enraizadas por trás dos pensamentos tóxicos; 4) questionar e confrontar essas crenças para verificar o quanto elas realmente são verdadeiras; 5) partir para ação (com medo mesmo!), provocando mudanças de hábitos que vão impactar na forma como ela se sente e pensa.

De forma mais prática, existem mais coisas que a Impostora pode começar a fazer que vão atenuar essa angústia em não ser boa o suficiente. Repare o quanto os seus padrões podem ser parecidos com os da Impostora. Eu mesma consigo identificar várias vezes em que fui essa (e ainda sou) essa personagem.


Passo 1: Evitar comparações

Os pensamentos tóxicos da Impostora surgem quando ela automaticamente se compara aos outros, colocando algumas pessoas em patamares surreais e se sentindo pequenininha, quase insignificante, perto delas. E a Impostora não se ajuda muito… claro que ela vai se comparar a pessoas mais experientes, que estão em outro nível da carreira, tornando essa competição quase que injusta. Apesar de ser saudável termos pessoas como referências e querermos alcançar objetivos grandiosos como os delas, inferiorizar-se o tempo todo pode atrasar a conquista das nossas metas. É muita energia gasta na comparação e menos energia restante para a ação!

A grama do vizinho sempre parece mais verde… a verdade é que todo mundo tem seus problemas e inseguranças. Se a Impostora aprender a honrar a sua história, seus objetivos e suas conquistas, ela pode começar a compreender que existe espaço para todo mundo.


Passo 2: Mergulhar no autoconhecimento!

Quanto mais a Impostora compreender suas qualidades e suas limitações, assumindo todas as suas características para si mesma, menos ela ficará com medo das suas sombras serem expostas. O monstrinho fica menos assustador quando a gente o ilumina e o questiona, porque o desconhecido aumenta o nosso medo.

Ninguém nunca saberá tudo sobre um assunto. A Impostora precisa aprender a falar “eu não sei, vou pesquisar”, para se libertar da falsa crença de que ela precisa ter sempre uma resposta, atendendo as expectativas dos outros. Se você se identifica com a Impostora, fale em voz alta para você se lembrar:

Está tudo bem a gente não saber tudo. Está tudo bem a gente aprender com os outros. Haverá oportunidades para a gente falar sobre o que a gente sabe também. 🙂

Para avaliar seu nível de autoconhecimento, faça uma listinha de 3 qualidades que possui e peça para pessoas próximas a você fazerem a mesma coisa (pode ser amigos, familiares, colegas de trabalho – quanto mais diversificado, melhor!). Quanto mais parecida for sua listinha com a dessas outras pessoas, mais acurada é a sua capacidade de reconhecer habilidades que você possui (e maior seu poder de confrontar a crença: eu finjo bem essa característica). Guarde essa listinha na sua memória para que, toda vez que você cometer uma falha, você não se identificar somente com seus erros – você também é aquilo que conquistou e todos os demais acertos.


Passo 3: Trabalhe seu diálogo interno

Uma única certeza na vida: teremos que conviver com nós mesmos o tempo todo, sem intervalos. Cabe a nós tornarmos essa convivência mais prazerosa e harmoniosa ou construir uma prisão mental com os nossos pensamentos. E para quem sofre da síndrome do impostor, os pensamentos podem ser cruéis. Perceba: a Impostora (que significa enganadora) não é realmente uma impostora. Ela só pensa que é. Ela é impostora de si mesma, porque fica com tanto medo de não atender as expectativas alheias que gasta energia demais tentando esconder algo que não existe (talvez só na sua própria cabeça).

Na próxima vez que você cometer um erro, ao invés de falar para si: “Que burrice! você não faz nada direito!” ou algo semelhante, pare e pense no que você falaria para um amigo próximo e muito querido. Talvez algo como: “Ei, não deu certo, mas continue tentando. Você tem as habilidades para corrigir isso ou para pedir ajuda para alguém. Não é o fim do mundo“.

Praticar a autocompaixão é um exercício diário, que pode ser mais difícil para quem está acostumado a diálogos internos cruéis. Ainda assim é possível. Continue se conectando com todas as nossas ferramentas, que quero te ajudar nesse processo. Vamos juntos? 🙂

Deixe uma resposta