COMO NÃO ME CONTAMINAR COM A DOR DO OUTRO

Por: Paula Roosch

Durante o velório do meu tio, eu fui até a minha prima, sua filha, e dei um abraço apertado. Até aquele momento, ela estava tentando ser forte para sua mãe, mas quando nos abraçamos, ela desabou. Seu pranto era tão desesperador e avassalador, que eu senti a sua dor aguda. Ali, era como se fôssemos uma só pessoa, compartilhando aquela tristeza – mesmo meu tio não sendo tão próximo a mim. Provavelmente passava filme na cabeça dela, com todos os momentos que ela não teria mais com ele – e eu imaginei seu filme na minha cabeça. Não consegui falar nada a não ser: “tá doendo muito, né?” Fui totalmente contaminada pela emoção.


Você já viveu uma situação assim, em que foi totalmente contaminado pela dor do outro, como se aquele sofrimento fosse igual ao que você sente nas suas próprias situações? Já foi contagiado pelo mau humor de alguém que ficou reclamando muito do seu lado, chegando até a se sentir drenado e sem energia?

Esses são casos de contágio emocional, ou seja, quando a emoção da outra pessoa interfere nas suas próprias emoções, podendo até te dar a sensação de ter sido sugado e de perder suas forças – emocionais e inclusive físicas.

A capacidade de sermos influenciados pelas emoções dos outros não é necessariamente algo ruim. Isso mostra a habilidade que é inerente aos mamíferos, de sentir com o outro, que faz parte do nosso potencial empático e nos torna seres sociais (leia mais sobre nosso texto da História da Empatia). Ao compartilharmos as emoções que são despertadas em uma experiência que vivemos, dividimos com mais precisão quem nós somos e qual a nossa visão de mundo. As conexões mais profundas são geradas nessa troca de emoções. Mas essa troca não é necessariamente útil se drenar nossas energias, certo?

A explicação (e ouso dizer, a solução!) está na imagem abaixo: no limiar entre a empatia, contágio emocional e compaixão.

A empatia, que é a nossa capacidade de sentir o que o outro sente emocionalmente e cognitivamente (com a razão) é o que nos permite construir laços afetivos. Só que, quando misturamos qual é exatamente o nosso sentimento e qual é o sentimento do outro, podemos sofrer de contágio emocional.

O contágio é bastante comum até os dois anos de idade, quando a criança ainda não consegue distinguir o que é dela e o que é do outro. Sabe quando um bebê chora e outros bebês próximos começam a chorar também? Eles confundem qual é o sentimento deles mesmos e quais são dos outros. Infelizmente, crescemos e continuamos a ter uma certa dificuldade de distinguir as nossas emoções com a dos outros de forma consciente, porque poucos de nós somos estimulados a desenvolver a inteligência emocional (se você está aqui, isso está prestes a mudar <3).

Essa transferência de emoções pode acontecer por sentimentos agradáveis (“fiquei tão feliz com a conquista do outro que pareceu a minha mesma”) como desagradáveis (como na minha história que introduziu esse post). Não conseguimos escolher quais emoções podemos ou não sermos contaminados e pode parecer egoísta não querer chorar com alguém com quem me importo. Mas além de não ser egoísta, não é funcional. Quem se permite ser muito contaminado com o sofrimento, pode até ter sintomas de burn out e ser influenciado em sua visão de mundo, afetando outras escolhas.

O equilíbrio está no outro limiar da empatia: na compaixão, quando compreendemos o que o outro sente, distinguindo qual é a emoção dele e qual é a minha, e fazemos algo para mudar a sua situação de dor. A compaixão, diferente da piedade (em que há o sentimento de dó), compreende as emoções compartilhadas, mas não me deixa ser drenado pela tristeza – pelo contrário, eu me mantenho em meu centro emocional de equilíbrio e consigo oferecer mais suporte e inteligência emocional para quem está sofrendo.

Imagine que uma mãe, que acompanha seu filho em um tratamento de câncer, sente sua dor de forma tão profunda que chora toda vez que o médico traz uma notícia ruim. Ela não só se sente drenada com a doença do filho, como também não consegue ter esperanças e dar uma palavra de ânimo para confortá-lo. Qual será o efeito emocional dessa reação durante o tratamento?

Agora imagine a mesma mãe, que apesar de triste, entende que é o seu filho que está doente. Ela compreende seu próprio sofrimento, mas sabe que está saudável e em melhores condições de dar suporte emocional ao filho, nas diferentes possibilidades de diagnóstico que o médico dá. Consegue imaginar a diferença do efeito emocional nessa situação em relação à primeira?

Provavelmente nós gostaríamos de ter a resiliência da mãe na segunda situação nos vários desafios que a vida nos coloca… só que, na prática, as coisas não são tão simples assim. E a tristeza, uma emoção que literalmente tira a nossa energia física, é uma das emoções mais difíceis de superarmos. Você já viu o Mapa das Emoções que postamos no Escola? Vou destacar a tristeza e a depressão para você enxergar os efeitos delas em nossos organismos:

Em vermelho, os locais onde as emoções se manifestam de forma mais profunda. Em azul, a sensação de ausência de energia nessas áreas. Perceba que a depressão chega até a provocar uma apatia na pessoa – exceto nos momentos em que a dor da tristeza é tão profunda, que a pessoa pode pensar que sua única solução é o suicídio.

Se você assistiu o filme Divertidamente, já sabe que a tristeza também tem seu papel. Essa falta de energia que ela provoca nos faz tirar o foco de prazeres e em diversões para focarmos na perda, dando-nos tempo para processarmos o ocorrido e fazermos os ajustes psicológicos necessários.

Um alerta aqui: a tristeza é importante, a depressão é perigosa. Se alguém que você conhece está triste há muito tempo e sem esperança na vida, ela pode estar com depressão – e, nesse caso, é muito importante que você a ajude a encontrar um especialista (psicólogo ou psiquiatra).

Esse papel da tristeza serve especificamente para a pessoa que sofreu o ocorrido. Só que essa emoção é tãão profunda, que pode facilmente contagiar os outros. Como o ser humano aaama denominar os eventos que descobre, isso também tem um nome: intercâmbio emocional (aprendi com o Daniel Goleman, meu muso da inteligência emocional).

A representação acima é para você ficar consciente quando emprestar emoções de alguém durante uma interação social. Quanto mais expressiva for a emoção de uma pessoa presente nesta interação, maiores são as possibilidades da pessoa com emoções mais brandas de ser contaminada. E outros fatores que contribuem com esse intercâmbio são a proximidade da situação com algo que você já viveu (quanto mais familiar, mais você sentirá aquela emoção) e o sentido cognitivo do contexto para você (se você acha ilógico alguém ficar triste por sair de uma relação abusiva, talvez não se solidarizará de forma tão profunda com uma amiga que está desolada pelo término de uma relação assim).

“Okaaay, Paula. Já entendi que o contágio não é saudável. Quando você começará a falar das soluções?”

Acho importante falar que não existem receitas mágicas para isso (eu também queria que existisse, acredite!). A Inteligência Emocional é um processo e uma caminhada que quero fazer junto com você através do Escola Mídiamor (que agora também está no Facebook \o/). As soluções abaixo são algumas sugestões que podem ser bem eficazes nesse processo, durante e depois da situação (caso o sentimento permaneça com você). Se você tiver mais alternativas, compartilha comigo nos comentários 🙂

Durante a conversa, ao perceber que as emoções desagradáveis estão afetando o seu estado de espírito, respire prooofundamente e ative seu poder de raciocínio! Você não precisa se desconectar da conversa e sim usar a empatia cognitiva a seu favor. Imagine a situação identificando o que a outra pessoa viveu e entenda que aquela situação é dela, e não sua. Toda vez que sua cabeça começar a falar algo como “mas que tristeza, quanta desgraça na vida dela“, questione esses julgamentos e conceitos e abra-se para enxergar a humanidade em comum entre vocês, apesar das diferenças. Não deixe que as emoções ceguem seu raciocínio – utilize-as a seu favor e a favor dos outros!

Um dos principais agravantes da tristeza, é a ruminação (isso mesmo que você leu, igual a vaca que rumina o capim). A gente fica ruminando aquele pensamento triste e tóxico, sem de fato processá-lo para que ele se vá. Não ajude na ruminação nas conversas: ao invés de salientar aquela tristeza que a pessoa está sentindo, dê espaço para a pessoa falar sobre seus sentimentos e necessidades e depois questione gentilmente se a pessoa também consegue ver outros lados da situação, como o aprendizado que teve através daquela experiência. Assim, você conseguirá aos pouquinhos praticar a compaixão com ela, mudando a qualidade emocional do diálogo e da interação entre vocês.

Se a conversa passou e você ainda está se sentindo drenado e sem energia, você pode sempre ficar consciente do ciclo de pensamentos que está gerando aquelas emoções. Será que esses pensamentos são realmente seus? Será que essas crenças são suas?

Hoje mesmo, uma amiga minha (não cito nomes aqui, mas se você for sua amiga, posso usar seus exemplos para o bem) me contou uma história sem perceber o quanto tinha sido influenciada. Ela se queixou sobre o seu relacionamento e disse que não tinha coragem de terminar, porque acredita que vai ser infeliz em todas as suas relações. Algo agravou essa crença: mais uma vez, ela conversou com uma de suas amigas que vivem relacionamentos tóxicos que disse a ela “não case, todo casamento será assim“. Minha amiga assumiu mais aquele comentário como verdade para ela e se deixou ser influenciada. Esse é um dos principais problemas do contágio emocional: nossa capacidade de discernimento fica afetada.

Além de aprender a questionar suas crenças, é saudável saber a hora de parar de confrontá-las (lembre-se da ruminação!) e procurar distrações saudáveis. Fazer sonhos (pode ser uma viagem, um emprego, um curso… algo que te anime!), assistir um seriado divertido, ler, fazer exercícios e orar podem ser eficazes para a mudança de emoções e da sua motivação interna. Ah, tente não desenvolver hábitos que alimentem ainda mais vícios e válvulas de escape tóxicas para você – não resolva uma dor de cabeça, batendo o dedão na quina da cama. 😉

Desejo que você consiga cada vez mais encontrar suas fontes de energia para oferecer mais compaixão aos outros. Esse é o verdadeiro impacto que precisamos provocar. E se você leu até aqui, me conta o que achou do texto 🙂

Até a próxima!

Deixe uma resposta