ESGOTAMENTO EMOCIONAL: E AGORA?

Escrito por: Paula Roosch

Imagine um dia assim: você se levanta da cama, lembrando de todas as coisas que planejou fazer. Assim que começa tomar seu café da manhã, seu estômago embrulha ao ouvir uma notícia de um assassinato horrível que aconteceu na sua cidade. No minuto seguinte, cai café na sua roupa e a irritação te invade por você precisar se trocar novamente. Enquanto se troca com pressa, seu alarme toca, te lembrando de uma reunião importante que, agora, você corre o risco de se atrasar. Durante o dia de reuniões estressantes e prazos apertados, sua mãe te liga para reclamar que você não tem dado tanta atenção a ela e vocês têm uma pequena discussão. Chega a noite e você se lembra que esqueceu de responder um e-mail importante. Sem perceber, passa um bom tempo conferindo as redes sociais e só se lembra do e-mail tempos depois, no exato momento que alguém querido quer desabafar contigo. Enquanto ouve, sua atenção vaga entre o e-mail e o desabafo. A frustração te invade, porque você se sente uma péssima pessoa que não consegue fazer nada direito. Depois, ao se preparar para dormir, você bate seu dedinho do pé na quina da cama e grita uns bons palavrões! Nesse ponto, você desaba: nem é exatamente por causa da dor, embora seja difícil explicar exatamente qual é a razão desse esgotamento emocional. Um misto de culpa, tristeza e frustração te invade e você só deseja ir dormir, esperando que a ansiedade não roube os seus pensamentos e te cause insônia.


A breve descrição no início desse texto poderia representar um dia comum de muitos de nós. Eu, pelo menos, sei que já tive vários dias assim, em que nada extremamente ruim tinha acontecido, mas que a soma dos eventos estressantes resultava em ciclos de pensamentos negativos que alimentavam uma bomba de emoções desagradáveis. Quando dias assim vão fazendo parte da nossa rotina, pensamentos de autodepreciação tomam conta da nossa mente, gerando emoções cada vez mais difíceis de se lidar e estados de humor que parecem nos afastar da sensação de alegria e de paz. Não é que a gente ainda não queira alcançar a felicidade: só parece que ela está distante ou até mesmo utópica. Você já teve ou tem essa sensação?

A montanha russa das emoções que podem surgir no mesmo dia…

Será que é possível lidar com o esgotamento mental e ter menos dias assim? Qual o segredo das pessoas que vivem trabalhos estressantes ou lidam com grandes responsabilidades e estão a maior parte do tempo com um sorriso no rosto, tendo equilíbrio emocional para resolver conflitos e paciência para serem atenciosas com os outros? Para entender melhor, te convido a mergulhar no universo das emoções.


O universo das emoções

Os nossos sentidos, captados pelo olho, nariz, ouvidos e outros órgãos sensoriais, enviam informações do meio que estamos ao nosso cérebro. Esses sinais sensoriais acionam nosso centro emocional, despertando emoções e, posteriormente, acionam nosso centro racional, gerando pensamentos a partir da nossa base de dados. O ciclo de pensamentos continua ligando e desligando as emoções no pano de fundo, definindo nosso estado de humor. Ao mesmo tempo, as emoções enviam sinais para nosso sistema endócrino, responsável por secretar hormônios que preparam nosso estado fisiológico: podemos ficar alertas, prontos para nos protegermos, lutarmos ou fugirmos, ou podemos ficar relaxados ou sem muita energia, para nos recompormos, por exemplo. Portanto, as emoções são essenciais na nossa interação com o meio. Vou tentar resumir essa explicação na imagem abaixo:

Como o meio afeta nosso interior e nossas próximas reações.

O esquema acima mostra o papel das emoções para a tomada de decisões. Mais do que isso, ele mostra que tudo começa no processamento das informações. Por isso, há algo fundamental para as emoções serem despertadas e para os ciclos de pensamentos serem gerados: a nossa base de dados. A forma como compreendemos o mundo depende de vários fatores, como nossas crenças, a cultura e o meio onde estamos, nosso conhecimento, nossa personalidade…

Por exemplo: uma barata pode despertar medo, pânico, nojo, raiva ou, quem sabe, fome. Tudo depende da base de dados de quem a vê.

Qual sua reação ao ver uma barata? Você teria coragem de provar um espetinho?

Tá bom, talvez eu tenha exagerado em relação à fome… mas deu para entender que a mesma situação pode despertar emoções completamente diferentes dependendo da pessoa, né? E mais, situações similares podem fazer a mesma pessoa reagir de formas diferentes, dependendo de seu contexto e de seu estado emocional anterior.

Sabe a historinha no início desse artigo? Agora imagine que você acordou tranquilamente em um fim de semana e vai tomar café enquanto assiste seu programa favorito com alguém que você ama. Sem querer, você derrama café na sua roupa. Nenhum compromisso te aguarda e a pessoa que você ama te ajuda, dando risada do desastre provocado. Você pode rir junto e até sentir um alívio porque o café não estava quente demais a ponto de te queimar. Tranquilamente você pausa o programa, troca sua roupa e continua tendo um dia agradável, porque o contexto e seu estado emocional foram diferentes daquele narrado anteriormente. Você lidou com o mesmo fato de forma diferente, porque o interpretou de outra forma.


Reprograme a base de dados

O primeiro ponto fundamental da nossa reflexão é: não acredite que um determinado evento te condicionará a sempre reagir da mesma forma. A beleza da vida é que tudo é inconstante e até nosso cérebro tem a capacidade fantástica de se adaptar e de se reajustar. Você não é o conjunto das suas crenças, sua personalidade, seu passado e nem um estado emocional – você pode até estar, mas não se coloque na caixinha permanente do ser. Isso restringe muito as suas possibilidades.

Qual sua postura diante de uma situação?

Além da identificação com uma crença, algo ainda mais impactante é quando a nossa base de dados exagera na interpretação e enxerga algo que vai muito além das informações, como uma tentativa de proteção. Esse exagero pode alimentar um ciclo tóxico de pensamentos e criar uma fantasia que nos faz sentir emoções pra lá de desagradáveis e sensações físicas desconfortáveis. É isso que acontece com pessoas que sofrem com crises de ansiedade, síndrome do pânico e tantas outras desordens emocionais: a mente se torna uma prisão.

Toda vez que algum evento te incomodar e te gerar uma emoção desagradável, questione suas crenças: será que passa pela sua cabeça algo como “isso sempre acontece comigo?” ou “eu sou uma péssima pessoa!” ou “nada dá certo mesmo” ou ainda “fulano é uma pessoa insuportável”? É tão comum a gente repetir falas limitantes sobre as nossas características, sobre os outros ou sobre as circunstâncias, dramatizando o evento isolado e adicionando uma carga emocional que talvez fosse desnecessária.

Voltando ao exemplo do início desse texto: se no começo do dia seu primeiro pensamento ao ouvir uma notícia ruim for de que “seres humanos são ruins” ou “o mundo não tem jeito”, seus pensamentos alimentarão emoções como tristeza, frustração e/ou ansiedade, afetando seu estado de humor para os próximos acontecimentos do dia. E mais, se a cada novo evento você focar em pensamentos pessimistas, isso contribuirá ainda mais para a alteração do seu estado de humor, sendo cada vez mais difícil de lidar com as emoções. Lembra que as emoções geram hormônios? Cada pensamento desencadeia uma emoção que afeta seu estado fisiológico. O estresse acontece quando pensamentos constantes focados nos problemas e na escassez (naquilo que te falta) geram emoções desagradáveis que colocam seu corpo em estado de alerta por um período longo, devido à liberação de cortisol. Claramente isso também tem o poder de afetar sua saúde.

Uma observação importante é que, quanto antes você questionar seus pensamentos, melhor. Caso seu organismo já esteja muito estressado e suas emoções já estiverem à flor da pele, será muito mais difícil acionar a racionalidade para despertar novas emoções e alterar seu estado de espírito. Treine ser investigador dos seus pensamentos para fazer isso cada vez de forma mais automática e rápida.


Foque na abundância!

Propositalmente eu descrevi um dia cheio de problemas no início desse artigo, porque ao interpretamos um evento isolado como ruim, aumentamos as chances de interpretarmos os próximos acontecimentos também como algo negativo. A boa notícia é que o oposto é verdadeiro: quando conseguimos ser gratos por algo que nos aconteceu, focando nas coisas positivas, isso também aumenta as chances de enxergarmos a beleza e a abundância do mundo à nossa volta.

Tudo depende da perspectiva… tá tudo bem ter planos e sonhos maiores, desde que você não transforme isso em uma lamentação ao invés da ação!

Eu poderia ter falado que, apesar da notícia ruim, a pessoa viu uma história de gentileza no Mídiamor e se emocionou, relembrando que seres humanos também podem ser empáticos. Apesar do café derrubado na roupa, o café estava delicioso e há um monte de opções disponíveis no armário para mudar o visual. As reuniões estressantes podem ser oportunidades de interação, de aprendizado, de contribuição para a empresa e para o crescimento pessoal. A reclamação da mãe significa que ela aprecia a companhia e de passar tempo junto. E que gostoso ter e-mails importantes para responder e pessoas que querem conversar e até desabafar coisas íntimas! Entendeu? Tudo depende do ponto de vista. Tá bom, bater o dedinho na quina da cama continuará sendo horrível – mas, pelo menos, você pode esperar a dor passar sem desabar de esgotamento (ou até mesmo estará mais atento e consciente das suas ações a ponto de não bater o dedo).

Lembre-se que toda emoção desagradável é gerada por um pensamento de escassez: você sente que algo falta para você, para o mundo ou para outra pessoa. Por outro lado, toda emoção agradável é gerada por um pensamento e pela sensação daquilo que você já tem. Por isso que a gratidão é transformadora no nosso estado de espírito e nos permite sentir outras emoções gostosas, como o amor, a alegria, a paz.


Dê um tempo

Consegue se lembrar de alguma situação em que você estava muito estressado e tirou um tempo para você, indo para um lugar mais tranquilo até se acalmar e poder enxergar o que aconteceu de outra forma?

Fica a dica para quando você estiver em uma situação de muito desgaste emocional em que você acha que não vai conseguir questionar seus pensamentos ou refletir sobre aquilo: dê um tempo. Se possível, vá para outro lugar, dê uma volta, respire outro ar… quanto mais tranquilo for o ambiente, melhor! A pausa tem o poder de acalmar as emoções altamente energéticas, como a raiva ou a uma crise de ansiedade, para que o centro racional do seu cérebro volte a entrar em ação, permitindo que você reflita com mais calma e ponderação.

Ah, fazer uma pausa fazendo compras ou comendo um doce gostoso pode não ser funcional caso você continue remoendo o que aconteceu – pelo contrário, isso pode até acentuar as emoções desagradáveis e acrescentar outras, como a culpa. Faça escolhas sábias de acordo com seus gostos, suas possibilidades e sua personalidade.

À sua esquerda, sugestões para “dar um tempo” que podem ser produtivas e ajudar na mudança positiva do estado emocional. À sua direita, alternativas que podem acentuar ainda mais seu estado emocional.

Espero que as alternativas acima te ajudem a lidar ou até a evitar o esgotamento emocional. Qual delas você gostou mais? Qual você pratica? Escreva nos comentários que eu quero saber! 🙂

Deixe uma resposta