TUTORIAL PARA PARAR DE VIVER O PASSADO

Escrito por: Paula Roosch

“Chega de chorar o leite derramado” é um ditado antigo que contém muita sabedoria. O que fazer com o copo derrubado e com o leite desperdiçado? Conformar-se com a bagunça? Esperar que alguém limpe? Sentir-se culpado pela bagunça pensando “eu sou um desastre em pessoa”? Ou arregaçar as mangas, encarar a sujeira e encher o copo com outra coisa? Não deixe que seu passado te impeça de ficar presente e condicione seu futuro. Inspire-se nas próximas linhas a superar a história que sua cabeça insiste em te contar…


Qual a história que sua cabeça está te contando que te atrapalha a ficar presente e a planejar o futuro com mais entrega e menos rancor? O que deixou de existir na sua vida que faz você se lamentar? Um sonho que não foi realizado, um amor, uma pessoa, um cargo, um status… ? Pense nas coisas que te aconteceram e que permanecem presentes na forma de memórias. E sem você se dar conta, por onde você for, ela vai contigo: a sua bagagem emocional! E como ela pode ser pesada…

Qual o peso da sua bagagem emocional?

Quero te ajudar a se despedir dessa bagagem. Pegue papel e caneta para colocar em prática essas ferramentas de inteligência emocional e se ver livre desse fantasma que tem assombrado os seus pensamentos. Topa?

Vamos começar refletindo sobre qual história abaixo (ou quais histórias), que ainda ocupa(m) um grande espaço na sua mente e te impede(m) de fazer novos sonhos:

Consegue refletir sobre quanto tempo você gasta contando essa história para si e para os outros? Sobre o quanto que esses pensamentos te fazem ter medo, raiva, insegurança, tristeza, a respeito de uma situação que não existe mais, mas que deixou um buraco dentro de você? E o que você poderia fazer com essa energia toda se a focalizasse para o presente?

Eu sei que a vida não é simples e eu mesma já arrastei muitas malinhas comigo por um bom tempo… sofrer faz parte da vida. Mas sabe de uma coisa? A gente pode transformar esse sofrimento em evolução. Como a Giulia disse em uma live, “dor que não é transformada é transmitida“.

Preparad@ para quebrar ciclos? Então vamos começar a quebrar alguns mitos que contam por aí…


Mito #1: O tempo cura tudo

Deixa eu te contar uma coisa sobre a frase “o tempo cura tudo”. Só o tempo não resolve sozinho o problema. Tem gente que passa a vida remoendo situações e se identificando com as histórias repetitivas que sua mente conta. Conhece alguém assim?

Ah, também não existe tempo certo pra uma dor passar. Talvez você tenha superado um término de uma relação de 14 anos em 2 meses e outra relação de 14 dias em 2 anos. A gente não sabe o impacto que uma situação pode provocar e reverberar dentro da gente. Mas se você continuar lendo esse texto, terá mais chances de processar e superar uma dor passada.


Mito #2: Arranje outra pessoa ou situação para superar a dor

Especialmente em términos de relacionamentos, somos levados a acreditar que podemos arranjar outra pessoa para superar um trauma antigo – e que essa pode ser a forma mais eficaz de esquecer uma velha história.

Você conhece alguém que começou uma nova relação, mas ainda vive fazendo comparações sobre uma história anterior (e às vezes até quer retomar o contato)? Conheço váárias pessoas assim. Isso é uma história mal resolvida.

A cura de uma situação precisa acontecer primeiro internamente, para o sofrimento não ser transmitido adiante. Não terceirize sua cura em alguém ou em uma relação. Só a gente pode curar nossas próprias feridas.


Mito #3: É melhor não ficar falando sobre isso…

Esse mito é bastante predominante no sexo masculino e em culturas mais fechadas. Não tenho a intenção de criar um estereótipo, mas de fazer uma reflexão sobre comportamentos normalmente adotados). Muitas pessoas acreditam que a melhor coisa para superar uma história é deixando pra lá e que falar sobre isso só vai piorar as coisas.

O que acontece quando escolhemos fazer isso? Colocamos a sujeira embaixo do tapete: ela não vai sair e pode aparecer a qualquer momento dependendo do móvel que você arrastar… se você não lidar com uma situação, ela pode voltar a te assombrar a qualquer momento.


Mito #4: A cura é desabafar

Depois que você leu o mito 3, talvez tenha pensado: “sim, nada como desabafar com alguém!! Cura tudo!”. Bom, embora desabafar seja importante e até ajude a aliviar o sofrimento interno, esse processo por si só não produz a cura de feridas profundas.

Digo mais: desabafar pode ser até improdutivo, se isso te ajudar a reforçar uma história triste na sua cabeça, somatizando emoções desagradáveis (como raiva, tristeza, frustração, etc.).

Então, Paula: qual a cura afinal? Continue com seu papel e caneta na mão.


1º passo: compreender e abraçar a dor como seu “novo normal”

Eu sei que depois desse ano de pandemia, quase ninguém aguenta mais em ouvir falar sobre o novo normal. Mas aqui, o seu novo normal é seu novo eu, após ter passado por uma situação que te marcou e que deixou de existir. Eu sei que não é fácil, mas não adianta tentar fugir da dor e da situação ou ficar com raiva por viver ou por sentir o luto.

Aceite que o sofrimento é parte da experiência humana, mesmo que todas as pessoas queiram se livrar da dor. Todos sofremos. Todos queremos parar de sofrer.

Tem gente que gasta muito tempo e energia sofrendo porque sofre, achando que isso é injusto ou se perguntado “Por que eu?? Ou por que comigo?”. Percebe como isso duplica ainda mais o sofrimento, não gerando ações produtivas?

Portanto, acostume-se que esse estado de dor será seu “novo normal” por um tempo. E isso pode ser positivo: pode ser uma possibilidade para evolução. É a beleza que está implícita em cada situação, boa ou ruim.


2º passo: Processe o luto

A gente tem pressa para parar de sentir e superar momentos difíceis, mas a gente tem que entender que há tempo para todas as coisas. A aceitação do luto é parte importante do processo.

Qualquer perda é um luto. Términos de relações, fins de fases, de sonhos, de planos, de pessoas.

Do que você sente falta? Pelo o que você está enlutado? Quais planos que você fez e por causa dessa situação não conseguirá mais fazer?

Pegue papel e caneta para fazer o exercício da figura a seguir. Rituais como cartas que são jogadas na fogueira ou no lixo acontecem por alguma razão.


3º passo: Compreenda a causa da dor

Se você só remoer o passado sem entender quais os sentimentos foram acionados e porque eles foram acionados, fica difícil tomar o próximo passo. Encarar a dor e compreender sua causa é fundamental para superá-la.

Às vezes a gente se prende tanto aos fatos do passado e aos estímulos que provocaram a dor, que nunca nos questionamos qual a verdadeira causa de sentirmos aquilo. “Estou sofrendo, porque fulano terminou comigo.” Isso não é causa, foi o evento que despertou algo em você. Você pode estar sofrendo, porque a necessidade de pertencer a uma relação ou de receber amor não está sendo suprida da forma como você esperava. Percebe a diferença para a gente cavar as reais razões da nossa dor?

Use seu papel e caneta para o próximo exercício: Liste o que te aconteceu e depois liste as emoções que você está sentindo. Por que você está sentindo aquilo? Qual sua interpretação diante do fato?


4º passo: Mudando a narrativa interna

Após uma situação passar, a gente a interpreta aquilo de formas específicas, de acordo com nossas crenças e experiências… e até tendemos a ficar nostálgicos, nos prendendo somente às coisas boas, o que é uma estratégia do cérebro pra tornar a vida suportável.

Lembre-se intencionalmente das coisas desagradáveis de alguma relação e pense nas novas possibilidades que você tem agora. Isso vai te ajudar a superar o luto e a ter mais esperança.

Outro ponto fundamental para questionarmos a história na nossa cabeça é nos perguntarmos: será que na nossa história somos vítimas ou vilões? Qualquer um dos dois personagens é prejudicial e subjetivo.

Pra te ajudar a identificar, você consegue lembrar se na causa da etapa anterior (no passo 3) você falou:

“estou me sentindo assim porque fizeram x, y, z comigo” – Se for o caso, você está se prendendo à narrativa de vítima.

ou

“estou me sentindo assim porque eu fiz isso e isso e provoquei tudo isso…” – Se for o caso, você está se prendendo à narrativa de vilão.

Desprenda-se das narrativas e avalie na terceira pessoa, escrevendo: “Aconteceu  isso: _________________ (UM FATO, E NÃO UMA INTERPRETAÇÃO) e me fez sentir essa emoção _____________, porque eu precisava de _______________________________________.”

É importante aqui pensar no ocorrido da forma mais objetiva possível, sem os achismos do que pode ter acontecido, mas no fato em si. “Fulano me abandonou“, “fui injustiçada por um colega de trabalho“, “meu pai não me ama“, são interpretações, ainda que bem embasadas. Ao invés disso, descreva: “fulano terminou nossa relação de 3 anos“, “um colega de trabalho não dividiu os créditos de uma pesquisa comigo“, “meu pai não fala comigo há 12 anos“.


5º passo: Defina novas estratégias para você suprir as necessidades que não estão sendo atendidas

Esse passo é essencial para você florescer um novo sentimento: a esperança. É a esperança que te dará motivação para você superar essa história passada e escrever um novo capítulo.

Antes de começar essa etapa, faça uma faxina: consegue perceber qual a causa pra você se afastar dessa dor? Verifique se há algum estímulo externo alimentando o sofrimento e faça estratégias para lidar ou evitar esse estímulo. Talvez haja fotos da pessoa que não está mais aí e que te deixe constantemente triste. Talvez você confira todos os dias as redes sociais d@ seu/ sua ex, te trazendo essa história à memória. Talvez um objeto, uma situação, um lugar, uma pessoa, estejam sendo gatilhos para reativar o sofrimento a todo instante. Até você superar o luto, seja gentil com você e tente se livrar desses gatilhos.

Para formular novas estratégias, comece escrendo o que você quer ser ou ter a partir de agora. Ah, é fundamental que isso não inclua o que outra pessoa pode fazer por você, mas o que você pode fazer por você.

Seja específico nessa etapa: liste suas necessidades que você já começou a identificar na etapa 5. A partir disso, planeje outras ações para você conseguir preencher essas necessidades. Isso te torna muito mais criativo e livre para sonhar: a gente não precisa ter uma pessoa específica ou um lugar para preencher algo dentro da gente. Se temos necessidade de respeito e colaboração, podemos encontrar ambientes, formas e relacionamentos para conseguir isso.

Para te lembrar que você já tem as ferramentas para alcançar esses objetivos, reconheça o que você já é e o que você já tem. Se for preciso, peça ajuda para amigos que te lembrem das suas qualidades. Receber elogios quando a gente não consegue se oferecer autocompaixão pode ser útil para mudarmos a nossa narrativa interna.

Agora não se esqueça disso: anote esse novo mapa dos sonhos e deixe em um lugar visível, pra você não voltar à velha narrativa. Às vezes sua cabeça voltará a te contar a velha história, então você precisa ter algo a se prender pra quebrar o velho hábito.

Ex: Desde que fulano terminou comigo (repare que não é “desde que fui rejeitada ou abondonada”), eu fiquei muito triste, porque preciso me sentir importante para alguém dentro de uma relação.

Exemplos de estratégias: para eu me sentir importante vou fazer trabalho voluntário e me dedicar mais tempo a amigos.


Concluindo…

Perceba se você precisa parar de remoer:

1 – Coisas que você acha que você poderia ter feito de diferente ou que você poderia ter sido melhor no passado. Entenda que você ofereceu o melhor que podia e aprendeu com a situação. Para ajudar, escreva os aprendizados que você tirou dessa experiência e que você não teria se não tivesse passado por aquilo.

2 – Coisas que você queria que os outros tivessem feito de diferente. O que os outros fizeram ou deixaram de fazer diz respeito à experiência deles e ao que eles puderam oferecer naquele momento. Esperar que algo tivesse sido diferente ou que eles voltem atrás é querer controlar o incontrolável e desperdiçar energia que você poderia usar para outra coisa.

Conta pra mim se essas reflexões te ajudaram? Bora virar a página e escrever novos (e empolgantes!) capítulos das nossas vidas.

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